Recentemente assisti à celebração dos 25 anos do A State of Trance (ASOT), programa criado por Armin van Buuren e que se tornou uma das maiores referências da música eletrônica mundial. Enquanto acompanhava os discursos e homenagens, percebi que não estava apenas vendo a comemoração de um radio show. Estava revisitando uma parte importante da minha própria história como fã, DJ e produtor.
Para muita gente, o ASOT é apenas um programa de rádio. Para uma geração inteira de apaixonados por música eletrônica, ele foi uma porta de entrada para artistas, estilos, gravadoras e comunidades que ajudaram a moldar a cultura eletrônica nas últimas décadas.
Hoje basta abrir um aplicativo e receber recomendações infinitas de músicas, artistas e playlists personalizadas. No início dos anos 2000 a realidade era completamente diferente.
Não existiam Spotify, YouTube Music ou algoritmos capazes de sugerir lançamentos instantaneamente. Descobrir música era um processo ativo. Era preciso pesquisar, conversar com outras pessoas, frequentar fóruns e explorar a internet em busca de novidades.
Talvez justamente por isso cada descoberta tivesse mais valor.
Era uma época em que o público participava ativamente da construção da cena. A internet funcionava menos como uma vitrine de consumo e mais como um ponto de encontro para pessoas que compartilhavam a mesma paixão.
Uma das minhas principais fontes de descoberta musical era a DI.FM (Digitally Imported), uma das rádios online mais importantes da história da música eletrônica.
Durante anos ela funcionou como uma verdadeira universidade para quem queria conhecer novos artistas, estilos e tendências. Ali era possível ouvir trance, progressive, house, techno e inúmeros outros gêneros transmitidos por pessoas que realmente viviam aquela cultura.
Ao mesmo tempo, eu acompanhava o A State of Trance através da Dance Paradise FM, de Curitiba. Toda semana existia aquela expectativa de ouvir o episódio mais recente, descobrir músicas inéditas e acompanhar o que estava acontecendo na cena global.
Para quem viveu aquele período, programas como o ASOT não eram apenas entretenimento. Eram uma conexão direta com um universo muito maior do que nossas próprias cidades.
Outro elemento fundamental daquela época eram as comunidades online.
Muito antes dos grupos de WhatsApp, Discord ou Telegram, existiam os fóruns e o Orkut.
Uma das comunidades que mais marcaram minha trajetória foi a In Trance We Trust. Milhares de pessoas compartilhavam lançamentos, comentavam episódios de radio shows, recomendavam artistas e ajudavam a espalhar a cultura trance para novos ouvintes.
Era comum descobrir uma música em um episódio do A State of Trance, procurar informações na comunidade, encontrar outros fãs e acabar conhecendo dezenas de artistas relacionados.
Hoje parece algo simples, mas na época essa troca de informações era um dos principais motores de crescimento da cena eletrônica.
Outro nome impossível de ignorar nessa história é o MySpace.
Antes do SoundCloud, do Bandcamp e das redes sociais modernas, o MySpace era a principal plataforma para artistas independentes divulgarem seu trabalho.
Foi ali que muitos DJs e produtores construíram suas primeiras audiências internacionais. Também foi onde inúmeros fãs descobriram músicas inéditas, remixes e projetos que ainda estavam dando os primeiros passos.
Para quem produzia música eletrônica, ter uma página ativa no MySpace era quase obrigatório.
Olhando para trás, é impressionante perceber como plataformas tão diferentes ajudaram a construir a base da cultura eletrônica que conhecemos hoje.
Criado por Armin van Buuren em 2001, o A State of Trance ultrapassou a marca de mil episódios e se transformou em um dos programas mais influentes da história da música eletrônica.
Mas acredito que seu verdadeiro diferencial nunca foi apenas a seleção musical.
O segredo sempre esteve na comunidade.
Durante a celebração dos 25 anos, Armin fez questão de agradecer produtores, DJs, gravadoras, fãs e toda a equipe envolvida no projeto. Em nenhum momento ele tratou o programa como uma conquista individual.
Essa talvez seja a maior lição do ASOT.
Grandes projetos não são construídos sozinhos.
Eles crescem porque conseguem criar pertencimento. Porque fazem as pessoas sentirem que também fazem parte daquela história.

Foto: ASOT | Eurotravelo
Como produtor musical, essa reflexão me atingiu de forma pessoal.
Ao longo dos anos produzi músicas, remixes, projetos paralelos e iniciativas ligadas à música eletrônica. Entre elas está o TOSS IT UP Radio Show, um projeto que nasceu justamente da inspiração deixada pelos grandes radio shows que acompanhei durante minha formação.
Olhando para a trajetória do ASOT, percebo que o maior aprendizado não está na popularidade ou no tamanho dos eventos.
Está na continuidade.
Durante vinte e cinco anos alguém apareceu toda semana para continuar uma conversa iniciada lá atrás.
Semana após semana.
Ano após ano.
Episódio após episódio.
Em um mundo cada vez mais acelerado, essa talvez seja uma das características mais difíceis de encontrar.
Legado raramente nasce de um momento extraordinário. Na maioria das vezes ele é resultado de milhares de pequenos momentos acumulados ao longo do tempo.
Para quem viveu a época da DI.FM, das comunidades do Orkut, do MySpace e das rádios online, os 25 anos do A State of Trance representam muito mais do que a longevidade de um programa.
Representam a história de uma geração inteira que descobriu a música eletrônica através da internet.
Uma geração que trocava músicas em fóruns, discutia lançamentos em comunidades, acompanhava DJs do outro lado do mundo e aguardava ansiosamente o próximo episódio do seu radio show favorito.
Ao ouvir o discurso de Armin van Buuren em Amsterdã, não vi apenas um artista comemorando uma marca histórica.
Vi o reflexo de milhares de pessoas que ajudaram a construir essa cultura ao longo dos últimos 25 anos.
E talvez essa seja a maior mensagem deixada pelo A State of Trance.
Grandes histórias não são construídas em uma única noite.
Elas são construídas por pessoas que decidem continuar.