Warung Day Festival 2026 Review

Depois de 11 edições, finalmente aconteceu.

Por muitos anos, o Warung Day Festival foi aquele tipo de evento que sempre esteve no radar. Não só pelo tamanho, não só pelo line-up, mas pelo peso cultural que o nome carrega para quem realmente vive ou viveu a música eletrônica além da superfície.

VANTRONIK - Warung Day Festival

Foto: Priscila Pires Paiva

Para muita gente, o Warung é só um evento ou uma marca forte. Mas para quem conhece sua história, sabe que existe algo maior ali. O Warung Beach Club, nascido em Santa Catarina, construiu sua reputação como um verdadeiro templo da música eletrônica underground no Brasil, especialmente dentro de vertentes como progressive house, melodic house e techno, sempre com uma curadoria mais refinada, emocional e conceitual.

E depois de tantos anos como DJ, produtor e apaixonado por esse universo, viver essa experiência no Warung Day Festival foi quase como fechar um ciclo.

A chegada

A primeira sensação ao chegar na Pedreira Paulo Leminski foi simples: satisfatória e grandiosidade, o local por si só já é incrível.

Entrada organizada, fluxo tranquilo, revista rápida. Optamos por estacionar um pouco mais afastado, já que os valores no perímetro mais próximo estavam altíssimos, algo que já era esperado. Ainda assim, isso não gerou grandes complicações e fez parte da logística normal. Logo na chegada, a estrutura visual já impressionava. Desde o início, o festival deixava claro que não estava ali para ser apenas mais um grande evento, mas uma experiência pensada em escala realmente grandiosa.

O totem de entrada, a visão panorâmica inicial e o reconhecimento dos três palcos já davam o tom:

  • Warung Stage: a essência do clube, uma tenda gigantesca, quase uma extensão da própria identidade clássica do Warung.
  • Pedreira Stage: a força bruta da Pedreira transformada em pista.
    Opera Stage (Ópera de Arame): uma atmosfera mais intimista, sofisticada e extremamente interessante.

Visualmente, tudo impressionava.

Curitiba sendo Curitiba

Se teve algo que impactou a experiência logo de cara, não foi o festival. Foi o clima.

Tempo fechado, chuva leve no começo e depois momentos mais intensos.

Isso inevitavelmente interfere. Quem frequenta grandes eventos sabe: chuva muda comportamento, energia, circulação e até a intensidade emocional da pista. Não destrói a experiência, mas altera. O frio segura parte da euforia, faz muita gente buscar abrigo e muda completamente a dinâmica natural de um festival open air.

Não foi culpa da organização, claro. Foi Curitiba sendo Curitiba.

Primeiras impressões

Começamos pelo Warung Stage, onde quem comandava era o duo brasileiro Ruback. E aqui vale um destaque importante: os caras levam público.

O stage estava cheio, pulsando, e ficou evidente o peso do nome deles dentro da cena atual. Musicalmente, a proposta veio mais voltada ao melodic techno, com uma pegada mais comercial em alguns momentos, mas extremamente funcional para o contexto.

Um detalhe chamou bastante atenção: assim que o set terminou, muita gente começou a dispersar e migrar para outros palcos. Isso deixou ainda mais claro o poder de atração da dupla. Não era apenas um público “do festival”, mas muita gente que claramente estava ali também para viver aquele momento específico.

Ou seja: Ruback não só entrega presença, como movimenta público.

E foi justamente ali que também ficou evidente um dos grandes méritos do festival como um todo: o som.

O PA estava excelente. Grave macio, pressão na medida, cobertura sonora muito bem resolvida, som alto, bonito, limpo e fisicamente agradável. Para quem valoriza experiência sonora de verdade, esse foi um dos primeiros grandes sinais de que o Warung Day Festival levava sua proposta a sério.

VANTRONIK - Warung Day Festival

Estrutura e experiência

Banheiros cobertos, grande quantidade de opções, organização ok e, principalmente, um sistema de autoatendimento que funcionava absurdamente bem.

Totens para compra de fichas, pagamento rápido, sem filas desnecessárias e uma operação muito mais eficiente do que grande parte dos festivais costuma oferecer.

Esse detalhe parece pequeno, mas muda muito a experiência.

O detalhe dos copos: estranheza inicial, lógica depois e uma surpresa muito positiva no final.

Um ponto curioso foi a questão do copo para consumir chope.

Na hora, a primeira reação foi estranhamento. Parece quase um “agora até isso?”. A necessidade de pagar pelo copo gerou aquele impacto inicial, principalmente para quem não esperava esse tipo de dinâmica.

Mas conforme a experiência foi acontecendo, a lógica começou a fazer sentido: menos descarte, menos lixo espalhado pelo chão, mais organização visual e, claro, uma ação forte de branding.

Só que o melhor veio no final.

Na saída, fomos surpreendidos por equipes da própria organização e da Heineken perguntando se queríamos devolver os copos. E sim: os R$5 pagos inicialmente retornavam integralmente.

Ou seja, na prática, não era simplesmente “comprar um copo”, mas participar de uma dinâmica inteligente de consumo consciente com possibilidade de reembolso.

Isso transformou completamente a percepção.

Foi uma sacada muito positiva de experiência, sustentabilidade e marca. O único ponto negativo aqui foi realmente comunicação: faltou deixar isso mais claro antes ou durante o evento. Inclusive, isso poderia ter sido usado como marketing de experiência de forma muito mais forte, porque a sensação final foi excelente.

Pedreira Stage: energia absurda e o maior problema estrutural do festival

Quando fomos para a Pedreira Stage, a energia mudou.

Ali o clima era mais intenso, mais voltado para uma pista de impacto, com artistas que claramente puxavam multidões.

E foi justamente aí que apareceu, para mim, o principal problema estrutural do evento.

Nomes como Eli Iwasa, Enrico Sangiuliano e Charlotte de Witte, artistas gigantes e extremamente hypados, especialmente dentro do techno, estavam concentrados em um palco que claramente não suportou a demanda real de público.

O resultado foi fila gigantesca, acesso travado e frustração para muita gente que queria viver esses momentos de forma mais intensa.

Esse foi talvez o ponto mais negativo de toda a experiência.

Não é uma crítica ao festival em sua essência, mas uma observação importante: determinados artistas já exigem estrutura proporcional ao peso que carregam.

VANTRONIK - Warung Day Festival

Rua da Música: pausa estratégica e experiência além da pista

Um ponto interessante foi a área de alimentação na Rua da Música.

Ali existia uma experiência um pouco diferente da lógica tradicional de praça de alimentação de festival. Em vez de uma operação central própria do evento (que não vimos na verdade), o espaço aproveitava marcas e estruturas já conhecidas do próprio local.

Os preços, naturalmente, eram altos. Mas dentro do contexto de um evento dessa dimensão e de um espaço turístico, fazia sentido.

Foi possível sentar, respirar, se reorganizar, comer muito bem e recuperar energia. Em eventos longos, esse tipo de pausa faz diferença real na experiência.

Opera Stage

A Ópera de Arame foi uma das surpresas mais interessantes do festival.

Além da beleza natural do próprio espaço, o ambiente entregava uma sensação diferente dos outros stages: mais intimista, confortável e quase como uma fuga estratégica da chuva e da intensidade das pistas principais.

Em determinados momentos, parecia uma grande balada premium dentro do festival.

Foi um espaço muito agradável, tanto pela atmosfera quanto pela proposta. A ideia inicial era voltar mais tarde para assistir Deep Dish, que se apresentaria por volta das 22h30, mas como fomos embora após o encerramento de Monolink, essa experiência acabou ficando para uma próxima oportunidade.

Monolink: experiência artística e contemplativa

Monolink era uma das atrações mais esperadas da noite.

E foi bom. Muito bom.

A proposta live trouxe exatamente o que se espera dele: musicalidade, atmosfera, identidade e presença artística. Ao mesmo tempo, pessoalmente senti um set mais contemplativo e introspectivo do que explosivo, o que em alguns momentos pareceu reduzir um pouco a pulsação coletiva da pista.

Não é crítica, é característica.

Monolink entrega uma experiência mais emocional do que necessariamente de impacto bruto.

No encerramento, Father Ocean cumpriu exatamente o papel emocional que todos esperavam. Mesmo não sendo a versão remix mais popularizada por Ben Böhmer, que muita gente talvez tivesse no imaginário como ápice, fazia total sentido que ele encerrasse com sua versão original.

E funcionou.

Foi bonito, coerente e fechou o show da forma como deveria: autoral, emocional e fiel à essência do próprio artista.

VANTRONIK - Warung Day Festival

No final das contas

Sem dúvida.

Mesmo com chuva.
Mesmo com limitações de acesso a alguns sets.
Mesmo com decisões de stage discutíveis.

O Warung Day Festival entregou algo maior: experiência.

Para mim, foi menos sobre simplesmente “ir a um festival” e mais sobre finalmente viver algo que por muitos anos existiu como símbolo dentro da minha própria trajetória com a música eletrônica.

Foi um reencontro.

Com a pista.
Com a curadoria.
Com a dopamina sonora.
E talvez até com uma parte antiga de mim mesmo.

  • Estrutura: 8/10
  • Som: 9/10
  • Organização: 9/10
  • Line-up: 10/10
  • Distribuição de público entre stages: 6/10
  • Experiência geral: 9/10
VANTRONIK - Warung Day Festival

Foto: Priscila Pires Paiva